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Um dia depois do outro

por Suria Scapin

Imagem disponível em: depositphotos.com

Gosto muito de conhecer diferentes religiões e ir juntando as pecinhas que me parecem coerentes de cada uma, criando a minha própria espiuritualidade. Foi assim que fui parar em um retiro no fim do ano passado. La, escutei uma frase que me incomodou muito: “quanto menos opções temos, mais livres somos”. 

Num momento como o atual, fica mais claro do que nunca como poder escolher é um baita de um privilégio e que, ao não ter escolha, tem muita gente correndo riscos que, quem tem opções de escolha não precisa correr. Não reconhecer isso me parece um tanto cruel.

E como a carga emocional do que está acontecendo já é pesada o suficiente, decidi fazer menos escolhas no dia a dia e apenas cumprir minhas responsabilidades e relaxar,Até pq, em relação à situação externa, vejo pouco que possa fazer além de apoiar quem precise e eu possa, fazer doações e ter responsabilidade. E no meio dessa luta pra não me sobrecarregar de cursos, lives, noticias, filmes gratuitos etc etc etc, repensar minhas escolhas ate aqui tem sido uma prática constante.

Entendo que sempre eh bom rever como chegamos onde estamos, do que nos orgulhamos, arrependemos, do que foi surpresa… em meio a muitas (muitas mesmo!) escolhas frustradas ou erradas (pq tem coisa que não dá pra atenuar e chamar de algo mais leve) uma escolha foge completamente à regra e me deixa feliz diariamente: ter escolhido a vida besta descrita por Drumond — so que com internet!

Há dez anos, decidi me mudar de sp para o que chamam de condomínio rústico, o que, na prática, quer dizer que cada um fura seu poço, faz sua fossa e instala o poste de luz para a sua casa. Além de não existir padrões para as construções, o que faz com que em um passeio vc passe por chácaras enormes, com quadra de tênis, lago etc e por casas simples e sem acabamento. 

O que hj recebe o nome de sustentabilidade eh a vida que conheco desde criancasempre, verdade que na epoca a escolha  não era exatamente minha, mas mais da minha mãe. lembro de fazermos brinquedos, móveis , reformarmos roupas e reutilizarmos quase tudo… e achava (e ainda acho) isso muito legal! Produzir pouco lixo, coletar agua de chuva para reuso etc da uma sensacao muito boa de integracao com o mundo e com a natureza. Igual quando a internet cai por aqui e dizem wue foi um galho que caiu sobre o cabo e vc sabe que foi isso mesmo. 

O que motivou minha escolha de sair de sp foi como era custoso viver ali. não só em termos de dinheiro, mas tb em termos de tempo e de energia. Em termos financeiros, eh fato que a vida aqui é  mais barata. Mas eu gosto mesmo eh de podermos trocar mexerica, limão, banana, cambuci, verduras, comprar do pequeno..  eh essa vida é a que faz sentido pra mim.

Quando fiz essa mudança, certamente, não imaginava que os “luxos” que eu vim buscar (terra pra pisar e plantar, céu escuro à noite, silêncio, pássaros, espaço para abrigar a bicharada resgatada…) seriam, em algum momento responsáveis por me ajudar a manter a sanidade e o corpo ativo.  E isso me leva a pensar sobre como eh importante nos conhecermos (sim, de novo o tal do auto conhecimento) para fazerm nossas escolhas quando elas se mostram, no sentido de escolher, realmente, o que senquer e o que nao se quer, de forma alguma no sentido de sair fazendo tudo ao mesmo tempo agora (a nao ser que isso seja uma escolha).

Se a escolha for errada, qto antes vc a fizer, antes vai descobrir que precisa mudar de rota. E se for a certa, vc vai comecar um caminho que apenas demoraria mais tempo para comecar se ficasse adianto seu inico.  Hoje, dez anos depois, me alegro pelo fato de comer frutas de arvores que se eu tivesse adiado a decisao, nem existiriam.

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Suria Scapin

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Suria Scapin
Suria Scapin é formada em design e tem especialização em Letras. Trabalhou no mercado editorial por mais de vinte anos como tradutora, diagramadora, editora e faz-tudo, além de ser parecerista credenciada pelo governo federal para projetos editoriais e de empreendedorismo. Abriu e fechou sua editora e se deu um período sabático no qual se perdeu pelo mundo pra descobrir que adora dar aulas de idiomas, lembrar que ama cozinhar e que não tem lugar melhor do que a casa da gente pra se encontrar. Nessa busca, o principal aprendizado foi que sempre dá para mudar, recomeçar, buscar o que nos faz bem.

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