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Casar…para quê?

Casar…para quê?

por Erane Paladino

Apesar dos avanços sociais destes tempos, ainda resta, especialmente no imaginário feminino, uma fantasia de felicidade associada a um encontro amoroso duradouro e sólido. Algumas, inclusive, não esquecem modelos românticos e persistem na procura daquele grande e paixão para toda a vida.
Existem vários pontos a serem levantados nesta reflexão. Um dos principais seria reconhecermos que quando foi estabelecido que o casamento deveria durar até a morte, vivíamos num mundo onde a expectativa de vida mal passava dos 30 anos. As condições de saneamento, qualidade de vida e inexistência de medicamentos antibióticos levava as pessoas à morte por parto, gripes, pneumonia e muitas doenças infecto-contagiosas. Por esta razão,até o início do século XX, uma pessoa com 40 anos era considerada idosa. O contraste com os dias de hoje é muito significativo. Além da longevidade e da qualidade de vida, vivenciamos um campo de interesses muito amplo. Temos mais oportunidades para aprofundar nosso conhecimento fazendo cursos, pesquisando através da Internet e viajando muito mais. As distâncias parecem ter diminuído graças a estes avanços. Há cerca de 50 anos, por exemplo, uma carta demorava em torno de uma semana para chegar em outro estado aqui no Brasil e duas semanas no mínimo para chegar em outro continente. As informações ficavam restritas a acontecimentos que afetariam diretamente a região ou o contexto local. O universo de interesses também ficava limitado, já que o acesso a viagens e à informação além fronteiras era muito caro e difícil.
Nossas vidas ficavam praticamente predestinadas dentro de um tempo e de um espaço bem definidos. Até as carreiras eram mais estáveis.
Com a emancipação da mulher e sua inserção no mercado de trabalho, no pós-guerra, também os modelos de relacionamento mudaram. Se no século XVII sua única opção era casar e ser mãe, hoje podemos escolher outros caminhos. Os casamentos eram também um negócio promissor para as famílias, pois a comunhão de bens era universal e, na maioria das vezes, eram os pais quem selecionavam os noivos. Os romances clássicos como Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta, eram histórias trágicas do amor impossível e ilustravam o quanto as implicações do matrimônio tradicional não reconhecia apenas o encantamento entre duas pessoas. Já no final século XIX, os folhetins começaram a ser lidos pelas mocinhas da Europa e acabaram por estimular algumas delas a fugirem de casa para viver o grande amor, como a autora Jane Austen retrata em seus livros.
O advento da pílula nos anos 60 trouxe mais oportunidade para as mulheres serem livres e todo o fortalecimento das individualidades propiciaram novas configurações de família, de relacionamento e, até de amor. Mesmo assim, ainda é possível perceber uma certa dificuldade em se abandonar o ideal romântico.
É difícil definir amor, pois ele varia de acordo com seus princípios históricos, filosóficos e culturais, mas vale lembrar que paixão não é amor. Sua origem vem de Pathos – no grego- que significa sofrimento. Quando nos encantamos por alguém, acabamos refém de um sentimento de passividade diante da idealização do outro. E o amor romântico ou o encontro com o “ grande amor de nossas vidas” cria este estado de êxtase que confunde nosso espírito. Embora seja intenso, muitas vezes a paixão não é profunda.
Como podemos pensar o amor?
Como a vida depende da experiência, chegamos num ideal de amor mais distante do amor ideal. Podemos considerar o afeto construído a dois como resultante de uma história com parceria, cumplicidade e amizade, para além da sedução e do encantamento. Como diz Rubem Alves, o casamento deveria ser uma partida de frescobol, onde os jogadores se empenhariam para lançar a bola na direção que o outro possa alcança-la. Neste caso, não há quem ganhe ou perca. Esta seria a associação que permite uma relação criativa e dinâmica. Se o casal tiver assunto e valores comuns, as coisas ganham mais tempero, certamente.
A essência de um relacionamento amoroso talvez esteja associada a este modelo. E, como hoje em dia, o vínculo entre duas pessoas pode ter várias tonalidades, toda a forma de amar nestes moldes valerá a pena!!!!!

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Erane Paladino

Contato:

Erane Paladino
Erane Paladino é psicóloga Clínica especializada em adultos e adolescentes, autora do livro O Adolescente e o Conflito de Gerações - Ed. Casa do Psicólogo.

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