{"id":10963,"date":"2016-04-09T14:52:47","date_gmt":"2016-04-09T14:52:47","guid":{"rendered":"http:\/\/titividal.com.br\/?p=10963"},"modified":"2017-05-30T18:12:34","modified_gmt":"2017-05-30T18:12:34","slug":"narrativas-oniricas-e-linguagem-simbolica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/titividal.com.br\/en\/narrativas-oniricas-e-linguagem-simbolica\/","title":{"rendered":"Narrativas On\u00edricas e Linguagem Simb\u00f3lica"},"content":{"rendered":"<p><b>O mundo inconsciente<\/b><\/p>\n<p>Acreditamos ter consci\u00eancia das motiva\u00e7\u00f5es que geram nossas decis\u00f5es e atitudes. No entanto, segundo Carl Gustav Jung, boa parte do que somos \u00e9, na verdade, inconsciente. Muitas de nossas decis\u00f5es t\u00eam suas origens justamente no inconsciente e em motiva\u00e7\u00f5es que n\u00e3o compreendemos por n\u00e3o termos consci\u00eancia delas. Quanto menos conscientes disso, mais emaranhados ficamos neste inconsciente e menos compreendemos o que nos acontece.<\/p>\n<p>Para Jung, o inconsciente \u00e9 a nossa parte mais s\u00e1bia, que conhece exatamente o caminho a ser seguido. Segundo ele, este inconsciente cont\u00e9m a base dos nossos pensamentos e atitudes conscientes e todas as respostas que precisamos para nos guiar. Al\u00e9m disso, o inconsciente capta as experi\u00eancias vividas e tudo que ouvimos e experimentamos, que fica registrado em um n\u00edvel subliminar. Mas, diferente do que Freud pensava, Jung acredita que o inconsciente n\u00e3o \u00e9 apenas um dep\u00f3sito de experi\u00eancias ruins e traum\u00e1ticas nem de desejos reprimidos, mas tamb\u00e9m uma parte s\u00e1bia de n\u00f3s mesmos que cont\u00e9m muitas informa\u00e7\u00f5es importantes sobre nossa vida e sobre quem somos.<\/p>\n<p>Em nossa vida consciente, estamos expostos a todo tipo de influ\u00eancias, as pessoas nos estimulam e damos import\u00e2ncia para objetos exteriores. Isso pode nos levar a caminhos opostos \u00e0 nossa individualidade, ao que somos e desejamos de verdade (e que o nosso inconsciente sabe).<\/p>\n<p>Mais do que isso, quanto mais a consci\u00eancia for influenciada por preconceitos, erros e fantasias, maior a fenda que j\u00e1 existe naturalmente entre consciente e inconsciente, o que pode gerar uma dissocia\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica e uma vida mais ou menos artificial, totalmente distante dos instintos naturais e da verdade. Ou seja, a pessoa vive sem estar de fato presente em sua vida. Al\u00e9m disso, quanto menos conscientes estivermos do nosso inconsciente, mais seremos dominados por ele, que passa a determinar os acontecimentos e circunst\u00e2ncias externas, isto \u00e9, passamos a ser conduzidos por ele sem nos darmos conta.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Jung, uma vida em equil\u00edbrio depende da interliga\u00e7\u00e3o entre consciente e inconsciente. Quando isso n\u00e3o acontece, surgem as doen\u00e7as, os dist\u00farbios, problemas e desequil\u00edbrios. Jung (2012a:36) ainda nos alerta sobre o perigo do inconsciente crescer na mesma propor\u00e7\u00e3o de sua repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, se \u201ca mente humana divide-se em duas partes, consciente e inconsciente\u201d, essa segunda \u00e9 a mais ampla (VON FRANZ, 2009:35) por isso \u00e9 t\u00e3o importante compreender essa parte mais vasta que existe em n\u00f3s. Ou seja, o inconsciente\u00a0 \u201ctamb\u00e9m \u00e9 parte da nossa vida. Uma parte talvez at\u00e9 maior, mais perigosa ou \u00fatil que a nossa vida consciente\u201d (JUNG, 2012a:35).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O caminho dos sonhos<\/b><\/p>\n<p>Se o inconsciente, na opini\u00e3o de Jung, \u00e9 nossa parte mais s\u00e1bia, como podemos conhec\u00ea-lo e compreend\u00ea-lo? \u00c9 a\u00ed que entram os sonhos, nosso principal canal de comunica\u00e7\u00e3o com o inconsciente. O sonho \u00e9 o caminho mais utilizado pelo inconsciente para se comunicar com nosso consciente. Os sonhos podem ser comparados a cartas enviadas todas as noites por essa nossa parte mais s\u00e1bia (VON FRANZ, 2009:41). Um sonho n\u00e3o interpretado \u00e9 como uma carta n\u00e3o lida.<\/p>\n<p>Uma das principais seguidoras de Jung, Marie-Louise Von Franz (2009:34) nos lembra que \u201cos sonhos t\u00eam sido considerados a via r\u00e9gia para o inconsciente\u201d. Segundo ela \u201cC.G.Jung viajou por essa via e trouxe consigo um mapa da psique humana\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A linguagem dos sonhos<\/b><\/p>\n<p>A linguagem escolhida pelo inconsciente para se comunicar atrav\u00e9s dos sonhos \u00e9 basicamente simb\u00f3lica. S\u00e3o s\u00edmbolos produzidos espontaneamente pelo nosso inconsciente, que se manifestam na forma de sonhos (JUNG, 2008:21). Por isso nem sempre \u00e9 f\u00e1cil compreender o significado de um sonho, que muitas vezes n\u00e3o se parece em nada com as narrativas contadas pela nossa mente consciente. No entanto, durante um sonho tudo parece natural e compreens\u00edvel, j\u00e1 que a narrativa inconsciente \u00e9 simb\u00f3lica e tem uma l\u00f3gica pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Mas se ao tentar interpretar um sonho achamos sua linguagem incompreens\u00edvel, os sonhos s\u00e3o a principal fonte de todo o nosso conhecimento a respeito do simbolismo. A vida on\u00edrica \u00e9 \u201co solo de onde, originalmente, nasce a maioria dos s\u00edmbolos\u201d (JUNG, 2008:43). Por isso, quando queremos \u201cinvestigar a faculdade humana de produzir s\u00edmbolos os sonhos s\u00e3o, comprovadamente, o material fundamental mais acess\u00edvel para isso\u201d (JUNG, 2008:34). Nas palavras de Jung (2008:25): \u201cos sonhos s\u00e3o o mais fecundo e acess\u00edvel campo de explora\u00e7\u00e3o para quem deseja investigar as formas de simboliza\u00e7\u00e3o do homem\u201d.<\/p>\n<p>Os sonhos s\u00e3o narrativas dif\u00edceis de se interpretar, j\u00e1 que sua linguagem contrasta com a mente consciente. Muitos sonhos n\u00e3o fazem sentido se os comparamos com a experi\u00eancia vivida enquanto estamos acordados. No entanto, enquanto estamos sonhando, tudo parece normal, j\u00e1 que estamos falando de uma narrativa que \u00e9 simplesmente diferente da que em geral n\u00f3s conhecemos. Apesar dessa contradi\u00e7\u00e3o entre a linguagem diurna e noturna, se queremos ter acesso ao inconsciente, precisamos aprender a decifrar e interpretar a linguagem simb\u00f3lica que surge enquanto dormimos. Por\u00e9m, \u201co homem \u2018civilizado\u2019 reage a ideias novas&#8230;erguendo barreiras psicol\u00f3gicas que o protegem do choque trazido pela inova\u00e7\u00e3o\u201d. (JUNG, 2008:33) Por isso, podemos \u201cobservar esse fato na rea\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo ao seu pr\u00f3prio sonho, quando ele \u00e9 obrigado a admitir algum pensamento inesperado\u201d. (JUNG, 2008:33)<\/p>\n<p>Como a linguagem do sonho \u00e9 simb\u00f3lica, em sua narrativa n\u00e3o temos a representa\u00e7\u00e3o direta de uma situa\u00e7\u00e3o, que em geral aparece atrav\u00e9s de met\u00e1foras. As imagens s\u00e3o utilizadas para ilustrar ou representar conte\u00fados emocionais e como seu simbolismo tem tanta energia ps\u00edquica, somos obrigados a dar alguma aten\u00e7\u00e3o ao que percebemos e sentimos. Especialmente nos dias atuais esta parece ser uma das principais formas das pessoas entrarem em contato com seu lado mais emocional e instintivo, j\u00e1 que<\/p>\n<p>na vida cotidiana precisamos expor nossas ideias da maneira mais exata poss\u00edvel e aprendemos a rejeitar os adornos da fantasia quanto na linguagem quanto nos pensamentos \u2013 perdendo, assim, uma qualidade ainda caracter\u00edstica da mentalidade primitiva (JUNG, 2008: 48).<\/p>\n<p>Para Jung, comparar o homem moderno e o primitivo \u00e9 indispens\u00e1vel para quem quer compreender a tend\u00eancia do homem de construir s\u00edmbolos (JUNG, 2008: 51). O homem primitivo estava mais integrado com seus instintos, ao contr\u00e1rio do que acontece com o homem moderno. Por isso o inconsciente encontra formas de expressar esse conte\u00fado que tem fun\u00e7\u00e3o t\u00e3o valiosa, o que acontece especialmente atrav\u00e9s dos sonhos, que s\u00e3o \u201cuma ponte entre a maneira pela qual transmitimos conscientemente os nossos pensamentos e uma forma de express\u00e3o mais primitiva, colorida e pict\u00f3rica\u201d (JUNG, 2008: 53). Mas, pela forma diferente de express\u00e3o entre consciente e inconsciente, existe um \u201ccontraste interessante entre os pensamentos \u2018controlados\u2019 que temos quando acordados e a riqueza das imagens produzidas pelos sonhos\u201d (JUNG, 2008:55).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Elementos do inconsciente coletivo nos sonhos<\/b><\/p>\n<p>Cada inconsciente escolhe s\u00edmbolos particulares que falem diretamente com o sonhador. Mas em muitos momentos o sonho tamb\u00e9m apresenta imagens coletivas. Nas palavras de Jung (2008:65): \u201ch\u00e1 muitos s\u00edmbolos&#8230;(e entre eles alguns de grande valor), cuja natureza e origem n\u00e3o \u00e9 individual mas sim coletiva\u201d.<\/p>\n<p>Essas imagens coletivas s\u00e3o chamadas arqu\u00e9tipos, representantes de conte\u00fados que ele denominou inconsciente coletivo. S\u00e3o imagens e associa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas a ideias, mitos e ritos primitivos. O homem \u201cracional\u201d aprendeu a se controlar e a separar cada vez mais da consci\u00eancia estas camadas instintivas mais profundas, mas n\u00e3o perdeu este lado, que se manifesta atrav\u00e9s dos sonhos, muitas vezes utilizando-se de imagens coletivas. Esta camada mais profunda \u00e9 a base da nossa mente, est\u00e1 ligada aos instintos e est\u00e1 mais pr\u00f3xima dos animais. Segundo Jung, podemos compreender esta camada a partir destas imagens e s\u00edmbolos coletivos, os arqu\u00e9tipos, que est\u00e3o relacionados aos mitos primitivos, que se manifestam especialmente nos momentos de grande transi\u00e7\u00e3o ou mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>A fun\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/b><\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>A principal fun\u00e7\u00e3o dos sonhos \u00e9 compensat\u00f3ria, ou seja, uma forma que encontramos de equilibrar consciente e inconsciente. Em outras palavras, como ficamos muito tempo conscientes, sem olhar para os conte\u00fados internos, emocionais, psicol\u00f3gicos e inconscientes, os sonhos nos mostram aquilo que est\u00e1 oculto. Para Jung (2008:56) \u201ca fun\u00e7\u00e3o geral dos sonhos \u00e9 tentar restabelecer a nossa balan\u00e7a psicol\u00f3gica, produzindo um material on\u00edrico que reconstitui de maneira sutil o equil\u00edbrio ps\u00edquico total\u201d.<\/p>\n<p>Neste sentido, o sonho compensa as defici\u00eancias de personalidade, previne dos perigos e transmite \u00e0 nossa consci\u00eancia os impulsos instintivos, ajudando a equilibrar a vida. Por isso, ao interpretar um sonho, sempre devemos nos perguntar que atitude consciente est\u00e1 sendo compensada pelo sonho, aceitando o conte\u00fado do sonho como uma realidade que deve ser acolhida e integrada \u00e0 vida consciente (JUNG, 2012a:37).<\/p>\n<p>Outra fun\u00e7\u00e3o importante dos sonhos \u00e9 a (re) conex\u00e3o com n\u00f3s mesmos e nossa ess\u00eancia, j\u00e1 que o inconsciente, segundo Jung, \u00e9 nossa parte s\u00e1bia, que fala conosco atrav\u00e9s dos sonhos, nos lembrando de quem somos e o caminho que devemos seguir. \u201cO sonho retrata a situa\u00e7\u00e3o interna do sonhador, cuja verdade e realidade o consciente reluta em aceitar ou n\u00e3o aceita de todo\u201d (JUNG, 2012a:25). O sonho representa, assim, \u201ca verdade e a realidade interiores, exatamente como elas s\u00e3o\u201d (JUNG, 2012a:26). Por isso o sonho \u00e9 um recurso muito eficiente na constru\u00e7\u00e3o da personalidade de uma pessoa.<\/p>\n<p>Sonhos podem nos avisar daquilo que n\u00e3o sabemos ou n\u00e3o conhecemos, j\u00e1 que o inconsciente \u00e9 nossa parte que sabe mais sobre n\u00f3s e nossa vida.. Por isso, envia avisos que \u201cpodem salvar nossa vida\u201d (VON FRANZ, 2009:74).<\/p>\n<p>O sonho ainda pode ter uma fun\u00e7\u00e3o premonit\u00f3ria, j\u00e1 que nosso inconsciente n\u00e3o trabalha com o tempo de forma linear, sendo capaz de alertar sobre coisas que ainda podem acontecer. Por isso tamb\u00e9m muitas vezes um sonho \u00e9 de dif\u00edcil compreens\u00e3o no momento em que acontece, j\u00e1 que \u201cno momento do sonho, tal ocorr\u00eancia ainda pode pertencer ao futuro\u201d (JUNG, 2008:98). Ou seja, \u201cos sonhos podem adquirir um aspecto de antecipa\u00e7\u00e3o ou de progn\u00f3stico\u201d (JUNG, 2008:99). Alias, \u201cmuitas vezes, um sonho pode at\u00e9 avisar que uma vida est\u00e1 correndo perigo\u201d (JUNG, 2012a:34).<\/p>\n<p>Assim, seja pelos avisos sobre quem somos, o que pode nos acontecer ou o caminho que devemos seguir, na vis\u00e3o de Marie-Louise Von Franz\u00a0 (2009:25):<\/p>\n<p>os sonhos n\u00e3o nos protegem das vicissitudes, doen\u00e7as e eventos dolorosos da exist\u00eancia. Mas eles nos fornecem uma linha mestra de como lidar com esses aspectos, como encontrar um sentido em nossa vida, como cumprir o nosso destino, como seguir nossa pr\u00f3pria estrela, por assim dizer, a fim de realizar o potencial de vida que h\u00e1 em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Os sonhos tamb\u00e9m mostram nosso lado oculto, aquilo que Jung chamou de sombra e que quanto mais escondemos de n\u00f3s mesmos e dos outros, mais nos prega pe\u00e7as, surgindo como pessoas e situa\u00e7\u00f5es externas que, na verdade, servem de espelho para nos mostrar aquilo que n\u00e3o percebemos em n\u00f3s mesmos. Essa sombra ou lado inconsciente costuma se manifestar em nossos sonhos:<\/p>\n<p>Dentro de cada um h\u00e1 uma sombra escondida. Por tr\u00e1s da m\u00e1scara que usamos para os outros, por baixo do rosto que mostramos a n\u00f3s mesmos vive um aspecto oculto da nossa personalidade. De noite, enquanto dormimos indefesos, sua imagem nos confronta face a face.<\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b><\/p>\n<p><b>Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/b><\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>Para interpretar um sonho, \u00e9 preciso captar sua mensagem. Mas analisar um sonho n\u00e3o \u00e9 algo que possa ser feito seguindo regras, j\u00e1 que a compreens\u00e3o de um sonho \u201c\u00e9 muito mais uma permuta dial\u00e9tica entre duas personalidades\u201d (JUNG, 2008:68) do que uma constru\u00e7\u00e3o feita a partir de regras pr\u00e9 determinadas. Jung ensinava seus alunos a apreenderem o quanto pudessem sobre o simbolismo e depois, ao analisar um sonho, que esquecessem tudo (JUNG, 2008:65).<\/p>\n<p>Para analisar um sonho, \u00e9 preciso lembrar que existe uma diferen\u00e7a entre sinal e s\u00edmbolo: \u201co sinal \u00e9 sempre menos do que o conceito que ele representa, enquanto o s\u00edmbolo significa sempre mais do que o seu significado imediato e \u00f3bvio\u201d (JUNG, 2008:64). Isso \u00e9 fundamental, j\u00e1 que a linguagem do sonho \u00e9 basicamente simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Outro ponto importante \u00e9 que a maneira pela qual o inconsciente conversa com o consciente varia de pessoa para pessoa. Por isso, um sonho jamais pode ser separado de seu sonhador e em um processo terap\u00eautico a interpreta\u00e7\u00e3o do sonho acontece na rela\u00e7\u00e3o entre paciente e terapeuta. At\u00e9 porque cada palavra tem um sentido diferente para cada pessoa, assim como a associa\u00e7\u00e3o de cada s\u00edmbolo com o conte\u00fado consciente \u00e9 totalmente particular. Talvez por isso Jung afirmava jamais ser poss\u00edvel \u201centender suficientemente bem o sonho alheio a ponto de interpret\u00e1-lo de modo perfeito\u201d (JUNG, 2008:65). De qualquer forma, \u201cuma interpreta\u00e7\u00e3o de sonho n\u00e3o tem valor enquanto n\u00e3o for encontrada a f\u00f3rmula que implica o consenso do paciente\u201d (JUNG, 2012a:30). Para compreender um sonho, \u00e9 preciso saber o que aquele s\u00edmbolo significa para o sonhador e captar seu conte\u00fado emocional individual.<\/p>\n<p>Para Jung (2012a:23) \u201cos sonhos s\u00e3o express\u00e3o direta da atividade ps\u00edquica inconsciente\u201d e por isso \u201ca tentativa de analisar e interpretar os sonhos \u00e9&#8230;um empreendimento teoricamente justific\u00e1vel do ponto de vista cient\u00edfico\u201d.<\/p>\n<p>Ao analisar a narrativa on\u00edrica, Jung alerta para a import\u00e2ncia de perguntar \u201cpara que\u201d ao inv\u00e9s de \u201cpor que\u201d, ou seja, a hist\u00f3ria contada por nosso inconsciente tem um prop\u00f3sito e n\u00e3o necessariamente \u00e9 a express\u00e3o de algo que vivemos como repress\u00e3o ou trauma. Muito pelo contr\u00e1rio. Na vis\u00e3o de Jung os sonhos mostram nossa realidade interna e apontam caminhos.<\/p>\n<p>\u00c9 bom lembrar que sempre existem muitas possibilidades para um mesmo sonho, que deve ser compreendido a partir da rela\u00e7\u00e3o paciente-terapeuta, sendo que este paciente \u00e9 chamado, a partir dessa linguagem simb\u00f3lica, a reagir com toda sua personalidade. Ainda assim, mesmo que que seja poss\u00edvel interpretar um sonho, toda interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 mera hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>Mas como somos tamb\u00e9m nossa parte consciente, \u201c\u00e9 indispens\u00e1vel levar em conta a exata situa\u00e7\u00e3o consciente na interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos\u201d (JUNG, 2012a:39), ou seja, um sonho sempre deve ser analisado a partir de quem somos na vida diurna, com nossas cren\u00e7as e valores, pois o equil\u00edbrio do ser humano depende justamente desta boa rela\u00e7\u00e3o entre consci\u00eancia e inconsci\u00eancia.<\/p>\n<p>Todo esse processo de an\u00e1lise dos sonhos parte do inconsciente e \u201ctermina com a reconstru\u00e7\u00e3o definitiva da personalidade total\u201d (JUNG, 2012a:44). Por fim, a interpreta\u00e7\u00e3o de um sonho vai muito al\u00e9m da pr\u00e1tica cl\u00ednica e da cura do paciente, pois \u201cconduz \u00e0 meta distante, quem sabe \u00e0 raz\u00e3o primeira da cria\u00e7\u00e3o da vida, ou seja, a plena realiza\u00e7\u00e3o do homem inteiro, \u00e0 individua\u00e7\u00e3o\u201d (JUNG, 2012a:44).<\/p>\n<p>Marie-Louise Von Franz (2009:77) diz que\u00a0 \u201cos sonhos determinam o destino de vidas individuais e de culturas como um todo. Foram fundamentais para o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental\u201d. Ela ainda frisa que muitos dos que hoje rejeitam os sonhos, acreditando que s\u00e3o algo sem sentido, sem saber seguem valores espirituais, cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es que surgiram justamente dos sonhos de pessoas que viveram muito tempo atr\u00e1s, j\u00e1 que os sonhos sempre tiveram um papel fundamental na determina\u00e7\u00e3o do destino de toda humanidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Linguagem simb\u00f3lica, narrativa on\u00edrica e compreens\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Como a linguagem on\u00edrica \u00e9 simb\u00f3lica, compreender seu significado n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. Mas \u201ccompreender \u00e9 um processo subjetivo\u201d (JUNG, 2012a:29) e por isso pode ser unilateral. Por\u00e9m, para Jung (2012a:29), quando a compreens\u00e3o \u00e9 unilateral, \u201cse trata de uma n\u00e3o compreens\u00e3o\u201d. Ele ainda complementa dizendo que \u201ca compreens\u00e3o deveria ser estabelecida <i>por consenso<\/i>, que seja fruto da reflex\u00e3o conjunta\u201d.<\/p>\n<p>No caso da interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, Jung (2012a:29) acreditava que quando o paciente \u00e9 levado a uma verdade, esta estaria sendo \u201cdirigida apenas \u00e0 sua cabe\u00e7a\u201d. Na opini\u00e3o dele, o paciente \u201ctem que evoluir para esta verdade\u201d, pois s\u00f3 assim \u201catingiremos seu cora\u00e7\u00e3o\u201d, tocaremos fundo e isso age muito mais intensamente.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel pensar, a partir da\u00ed, sobre a necessidade do di\u00e1logo no processo de compreens\u00e3o, fundamental no caso da interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos e em qualquer processo compreensivo. Para analisar um sonho, \u00e9 preciso compor um contexto. Jung (2012a:32) compara a interpreta\u00e7\u00e3o do sonho \u00e0 leitura de um texto incompreens\u00edvel, algo que n\u00e3o conseguimos ler. Neste sentido, n\u00e3o adianta tentar interpretar antes de aprender a ler. Por isso, o primeiro passo \u00e9 o conhecimento da linguagem simb\u00f3lica, para que ent\u00e3o seja poss\u00edvel compreender a narrativa dos sonhos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso interpretar a partir da l\u00f3gica inconsciente, ou seja, percebendo que h\u00e1 uma narrativa na linguagem on\u00edrica e, portanto, \u201cpara compreender o sentido de um sonho\u201d \u00e9 preciso se \u201cater t\u00e3o fielmente quanto poss\u00edvel \u00e0 imagem on\u00edrica\u201d (JUNG, 2012a:33).<\/p>\n<p>Ainda assim, \u201ctoda interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mera hip\u00f3tese, apenas uma tentativa de ler um texto desconhecido\u201d (JUNG, 2012a:33). Al\u00e9m disso, a interpreta\u00e7\u00e3o v\u00e1lida de um sonho \u00e9 mais segura quando se analisa uma s\u00e9rie de sonhos, pois atrav\u00e9s de sua l\u00f3gica e linguagem pr\u00f3prias, o inconsciente apresenta sua narrativa dentro de um contexto maior, ao longo da vida de uma pessoa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Sincronicidades<\/b><\/p>\n<p>Al\u00e9m dos sonhos, as sincronicidades tamb\u00e9m s\u00e3o formas do nosso inconsciente se manifestar. Mas, ao contr\u00e1rio dos sonhos, neste caso, o inconsciente se manifesta tamb\u00e9m atrav\u00e9s de acontecimentos externos ao indiv\u00edduo. Sincronicidades s\u00e3o \u201ccoincid\u00eancias significativas\u201d, que tenham conex\u00e3o acausal e que acontecem de forma natural. Para que exista uma sincronicidade, \u00e9 preciso que seja mais do que uma simples coincid\u00eancia. \u00c9 necess\u00e1rio que os dois ou mais acontecimentos envolvidos nesta coincid\u00eancia tenham um significado ps\u00edquico. S\u00e3o \u201c\u2018coincid\u00eancias\u2019 de tal modo ligadas significativamente entre si, que seu concomitante \u2018causal\u2019 representa um grau de improbabilidade que seria preciso exprimir mediante um n\u00famero astron\u00f4mico\u201d (JUNG, 2012c:31).<\/p>\n<p>Em seu livro <i>Sincronicidade,<\/i> Jung conta uma situa\u00e7\u00e3o envolvendo uma paciente que ilustra bem o que \u00e9 este fen\u00f4meno. Ele conta que em um momento cr\u00edtico no tratamento de uma de suas pacientes, ela teve um sonho no qual recebia um escaravelho de ouro de presente. Enquanto sua paciente lhe contava o sonho, Jung estava sentado de costas para a janela fechada, quando ouviu algo batendo na janela. Quando viu, havia ali um inseto alado se debatendo do lado de fora contra a janela. Jung, ent\u00e3o, abriu a janela e pegou o inseto. Para ele, um besouro era a analogia mais pr\u00f3xima de um escaravelho de ouro, imposs\u00edvel de ser encontrado onde estavam. Este \u00e9 um dos principais exemplos de Jung para o fen\u00f4meno que chamou de sincronicidade.<\/p>\n<p>Assim como os sonhos, que tamb\u00e9m podem estar envolvidos em uma sincronicidade, este fen\u00f4meno nos coloca em contato com nossos conte\u00fados interiores e aponta caminhos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante compreender a sincronicidade considerando os diversos acontecimentos envolvidos, pois \u201ca narrativa de fatos not\u00e1veis isolados&#8230;n\u00e3o tem utilidade nenhuma\u201d (JUNG, 2012c:44).<\/p>\n<p>Mas por ser algo complexo e dif\u00edcil de ser explicado, Jung foi atr\u00e1s de outras \u00e1reas do conhecimento que pudessem explicar estes fen\u00f4menos. Fez isso especialmente atrav\u00e9s das t\u00e9cnicas divinat\u00f3rias ou intuitivas, especialmente o I Ching, por considerar que elas atuam pelo princ\u00edpio da conex\u00e3o sincron\u00edstica ou acausal. Al\u00e9m disso, Jung fez um experimento astrol\u00f3gico, na tentativa de comprovar a sincronicidade. Para ele, existe uma coincid\u00eancia em princ\u00edpio sem explica\u00e7\u00e3o causal entre os ciclos celestes e os acontecimentos terrestres. Sobre a rela\u00e7\u00e3o existente entre Astrologia e este fen\u00f4meno, Jung considera ser sincronicidade \u00a0que aquilo que \u201cnasce ou \u00e9 criado num dado momento adquire as qualidades deste momento\u201d (JUNG, 2012d:15) e tamb\u00e9m que \u201c\u00e9 poss\u00edvel imaginar uma conex\u00e3o causal entre os aspectos planet\u00e1rios e as disposi\u00e7\u00f5es psicofisiol\u00f3gicas\u201d (JUNG, 2012c:53). Para seu experimento astrol\u00f3gico, Jung trabalhou com mapas de casais, buscando a confirma\u00e7\u00e3o da correspond\u00eancia astrol\u00f3gica tradicional de casamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>As narrativas on\u00edricas e a linguagem dos sonhos est\u00e3o em todo lugar, inclusive na m\u00eddia<\/b><\/p>\n<p>Podemos pensar que sonhos s\u00e3o narrativas individuais que acontecem durante a noite e contam apenas hist\u00f3rias pessoais. No entanto, a linguagem dos sonhos est\u00e1 presente o tempo todo em filmes, novelas, livros, revistas, jornais e todo tipo de m\u00eddia.<\/p>\n<p>Um bom exemplo \u00e9 o filme <i>Sonhos<\/i> do Akira Kurosawa, baseado em sonhos verdadeiros do cineasta. Toda narrativa se desenvolve atrav\u00e9s de imagens on\u00edricas. Tamb\u00e9m o filme <i>A origem<\/i> tem o inconsciente e o mundo dos sonhos como tema principal de sua narrativa, apresentando imagens e s\u00edmbolos pr\u00f3prios dos sonhos e algumas teorias sobre a rela\u00e7\u00e3o existente entre consciente e inconsciente e o sonho como ponte entre os dois.<\/p>\n<p>A m\u00eddia apropria-se constantemente dessas narrativas on\u00edricas, especialmente quando utiliza a linguagem simb\u00f3lica, pois como afirmava Jung (2008:25,34,43) a maioria dos s\u00edmbolos e imagens simb\u00f3licas originam-se em nosso inconsciente, especialmente nos sonhos. Por isso, se queremos compreender melhor esta linguagem, devemos estudar os sonhos.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje em algumas culturas os sonhos s\u00e3o tidos como avisos ou a principal fonte para as decis\u00f5es importantes, como guias. \u201cOs sonhos determinaram o destino de vidas individuais e de culturas como um todo. Foram fundamentais para o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental\u201d (VON FRANZ, 2009:77). Marie-Loiuse Von Franz (2009:68) conta que<\/p>\n<p>Muitas civiliza\u00e7\u00f5es antigas levavam extremamente a s\u00e9rio seus sonhos. Por ironia, muita gente que hoje rejeita os sonhos como algo sem sentido, sem saber aceita e segue valores espirituais, cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es que se originam diretamente dos sonhos de indiv\u00edduos que viveram h\u00e1 milhares de anos. Durante toda a hist\u00f3ria religiosa da nossa cultura judeu-crist\u00e3 os sonhos tiveram um papel central na determina\u00e7\u00e3o do destino da humanidade. Eles eram tidos como a voz de Deus.<\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>O fato \u00e9 que sonhos s\u00e3o canais de comunica\u00e7\u00e3o, uma forma do inconsciente falar conosco. Para tanto, utiliza-se de uma linguagem pr\u00f3pria, que devemos conhecer se desejamos n\u00e3o apenas interpretar os nossos sonhos, mas tamb\u00e9m se queremos compreender muito do que est\u00e1 na m\u00eddia, que se utiliza desta linguagem tamb\u00e9m pela possibilidade de se comunicar atrav\u00e9s de imagens e s\u00edmbolos presentes no inconsciente coletivo.<\/p>\n<p>Se hoje \u201cn\u00e3o existe mundo sem m\u00eddia e sem m\u00eddia o mundo n\u00e3o existe<a title=\"\" href=\"file:\/\/\/E:\/sonhos.docx#_ftn1\">[1]<\/a>\u201d, e se a m\u00eddia \u00e9 importante narradora do mundo atual, tamb\u00e9m n\u00e3o existe mundo sem sonhos, j\u00e1 que estes s\u00e3o os grandes respons\u00e1veis por restabelecer o equil\u00edbrio que deve existir entre consciente e inconsciente e j\u00e1 que eles contam a hist\u00f3ria individual e coletiva a partir de narrativas pr\u00f3prias t\u00e3o significativas e importantes na constru\u00e7\u00e3o de nossa cultura e civiliza\u00e7\u00e3o. Assim, conhecer o mundo inconsciente e compreender a linguagem simb\u00f3lica presente especialmente nos sonhos \u00e9 um bom caminho para compreender melhor o ser humano e a constru\u00e7\u00e3o da nossa cultura.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Refer\u00eancia<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>HOPCKE, Robert H. <b>Sincronicidade ou nada \u00e9 por acaso. <\/b>Rio de Janeiro: Nova Era, 2001.<\/p>\n<p>JUNG, Carl Gustav. <b>O homem e seus s\u00edmbolos.<\/b> Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.<\/p>\n<p>______. <b>Ab-rea\u00e7\u00e3o, an\u00e1lise dos sonhos e transfer\u00eancia.<\/b> Petr\u00f3polis: Vozes, 2012. (a)<\/p>\n<p>______. <b>Mem\u00f3ria, sonhos e reflex\u00f5es. <\/b>Rio de Janeiro: Nova Fronteira (Saraiva de bolso): 2012. (b)<\/p>\n<p>______. <b>Sincronicidade.<\/b> Petr\u00f3polis: Vozes, 2012. (c)<\/p>\n<p>JUNG, Carl Gustav. WILHELM, Richard. <b>O segredo da for de ouro: <\/b>um livro de vida chin\u00eas. Petr\u00f3polis: Vozes, 2012. (d)<\/p>\n<p>VON FRANZ, Marie-Louise. <b>O caminho dos sonhos. <\/b>S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2009.<\/p>\n<p>WILHELM, Richard. <b>I Ching: <\/b>o livro das muta\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Pensamento, 2006.<\/p>\n<p><b>Filmes<\/b><\/p>\n<p>KUROSAWA, Akira. <b>Sonhos (Dreams). <\/b>Jap\u00e3o, Estados Unidos: 1990.<\/p>\n<p>NOLAN, Christopher. <b>A origem (Inception). <\/b>Estados Unidos: 2010.<\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/E:\/sonhos.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> K\u00fcnsch, Dimas. Frase proferida na disciplina <i>Comportamento, subjetividade e cultura da m\u00eddia<\/i>, no primeiro semestre de 2013 (Mestrado em Comunica\u00e7\u00e3o, Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero)<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo inconsciente Acreditamos ter consci\u00eancia das motiva\u00e7\u00f5es que geram nossas decis\u00f5es e atitudes. 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