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Alfazema, coisa de vó.

Quando criança eu adorava abrir as gavetas dos armários do quarto de minha avó. Morávamos nós seis, em sua casa térrea na Vila Romana, em São Paulo. Na parte da frente ficávamos eu, meus dois irmãos, meu pai e minha mãe. Na casa dos fundos, com seu jeito tranquilo e sereno, morava Dona Cleonice, minha avó paterna.

Filha de italianos, de rosto claro, nariz pontudo e olhos castanhos escuro. Baixinha, de cabelos brancos e curtos, da altura do queixo, que combinavam com seus pequenos brincos de pérola. Usava sempre vestidos de tons mais escuros e discretos. Gostava de ficar com seus chinelos de pano andando pela casa. Aproximadamente oitenta anos, na época.

Eu a visitava quase todos os dias, menos aos fins de semana, quando ficava na rua com meus amigos. Sempre por volta das quatro horas da tarde eu ia ao seu encontro, para tomar o seu especial café com leite. Sabe aqueles cafés da tarde muito comuns de antigamente mas que atualmente não temos mais tempo para apreciar? Era desse tipo. Naquele tempo, tinha tempo.

Era tudo muito simples, pão, manteiga e um pedaço de queijo, tipo mineiro e um café com leite, doce, muito doce. Ela já me servia assim, tudo já pronto e assim o bebia. Eu sentava naquele momento apenas para tomar café, era assim que era. Tudo feito em um fogão de ferro, branco esmaltado. Sua cozinha tinha um piso vermelho, cor de terra queimada. As paredes tinham azulejos brancos e pretos.

Por mais que adorasse a alquimia que ela fazia em sua pequena cozinha, minha maior ansiedade tinha outra razão. Eu torcia para ela sair de sua casa, mesmo que fosse para ir apenas até o quintal. Explico. Eu tinha uma missão. Uma missão que era muito importante e clara para mim, com toda aquela convicção e certeza que apenas adultos de dez anos de idade possuem. Eu precisava explorar o seu universo. Eu precisa fuçar no seu quarto.

Assim que ela saía eu vasculhava os baús, as gavetas, os cômodos, as caixas e tudo o mais que estava escondido. Encontrava de um tudo. Objetos como o canivete do meu avô, fotografias de casamento de uma tia que nem conhecia, brinquedos antigos de meu pai, documentos, cartas, entre outros pequenos vestígios da memória de sua vida. Eram tesouros. Guardados cuidadosamente para crianças, como eu, não mexer. Eram irresistíveis.

Essa cena apareceu em minha mente no momento em que fechei os olhos e pensei sobre a planta que falaria dessa vez. Ao lembrar do seu aroma fui levado diretamente para o quarto de minha avó. Para a minha infância. Fui levado a uma memória ainda doce e pura. Fui levado até a Alfazema. Cheguei até minha avó.

O aroma dessa planta permeava todos os lugares secretos daquele quarto. Por meio dos pot-pourris que eram colocados embaixo das roupas. Nas gavetas de meias e peças íntimas. Nos penduricalhos de saquinhos que ficavam com as roupas de frio do baú. No frasco em cima da penteadeira, ao lado dos brincos e anéis, representado pela imagem de uma camponesa, em uma plantação de cor rosa e lilás onde apenas um céu azul observava o seu sorriso. Se você nunca viu essa embalagem de colônia de Alfazema, por favor, me desculpe, pois esse conteúdo só deve estar fazendo sentido para maiores de trinta anos.

Uma das fragrâncias mais conhecidas no Brasil a Alfazema possui um aroma que remete a infância, pureza e inocência. É uma planta analgésica, sedativa e possui um poder de limpeza e purificação muito potente. Por se tratar de um verdadeiro calmante natural essa erva ajuda as pessoas na melhora da qualidade do sono. Podendo ser utilizada na composição de banhos e defumações, suas propriedades terapêuticas ajudam no combate da depressão e do desânimo.

Auxilia também na limpeza e harmonização de ambientes tensos e, também, no tratamento para reduzir as dores de cabeça causadas por estresse emocional. Para limpeza de ambientes experimente misturar um pouco da essência com água e borrifar nos ambientes e sinta a leveza que ela traz para o local. No caso de dores de cabeça aplique duas gotas da essência nos dedos e massageie as têmporas.

Essa gentil planta é regida pelo planeta mercúrio e tem como principal elemento relacionado a sua natureza o ar. A parte mais utilizada para banhos, defumações, óleos e chás são suas flores. Seus principais poderes, se podemos chamar assim, são a proteção, a pureza e o sentimento de amor que sua presença proporciona. Pensando bem, não é a toa que ela lembra você vó.

Saudades.

Existe alguns estudos científicos que separam e diferenciam a Alfazema da Lavanda. Pelo meu entendimento a Alfazema, também conhecida como lavanda-inglesa ou lavender, é um tipo de lavanda. Seu nome científico Lavandula é derivado do Latim Lavare que significa lavar, limpar. Antigamente essa planta era utilizada, pelos povos gregos e árabes, em banhos e lavagem de roupas.

Durante a Peste Negra na idade média, no continente europeu, as pessoas que se utilizavam da Alfazema para a limpeza de suas vestes e, também, as que utilizavam nos banhos ficaram protegidas na época por se tratar de um poderoso antisséptico. Uma família de plantas, se assim podemos dizer, que vem cuidando do povo há tanto tempo, que por já ser tão conhecida e, praticamente de casa, o que menos importa aqui é a sua origem mas sim para o que veio.

 

Segue o teu destino…

Rega as tuas plantas; 

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra  de árvores alheias

(Fernando Pessoa)

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